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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Eu sei... (Justiça Própria II)

Nesta segunda parte, temos a justiça própria em seu modo mais clássico, mais grosseiro. É a justiça própria na perspectiva do “eu sei”. Nesta forma de pensar, a pessoa tem um conceito exaltado, elevado, arrogante e orgulhoso sobre si mesmo e sobre a vida de modo geral. Crê que sabe viver, sabe dirigir sua vida, sabe o que é melhor para ela e para as pessoas; e muitas vezes crê até que sabe o que Deus deveria ou não fazer. Acredita que possui toda a habilidade, sabedoria e entendimento (inteligência, idéias, etc) para viver por si mesmo, e que suas limitações são apenas de recursos e poder. 

Geralmente a pessoa que vive nesse pensamento de justiça própria do “eu sei”, é extremamente rígida, inflexível; pois, afinal ela “já sabe”. Então tudo tem que ser do seu jeito, e muitas vezes nem se submete aos processos, porque do "seu jeito" é melhor. Esse é o tipo de pessoa que faz todo o planejamento da sua vida, decide como tudo deve ser, o caminho a ser trilhado, e depois apenas apresenta para Deus abençoar. Isso porque ela não precisa de Deus para guiá-la, só precisa de Deus para abençoá-la, pois já sabe como a sua vida deve ser dirigida e onde deve chegar.

O problema dessa cultura  é que primeiramente a pessoa sofrerá muitas frustrações como consequências de suas decisões arrogantes, pois obviamente Deus não se submeterá ao que ela acha que sabe. O Senhor, por causa de seu compromisso com o propósito individual que tem com cada um de seus filhos, cumprirá tudo o que  precisa fazer na vida deste e em sua volta, e muito provavelmente não é nada daquilo que a pessoa pensa. Como consequência a pessoa vai se tornando extremamente amargurada e irada, porque Deus não tem compromisso com a justiça própria de ninguém.  Esse é um dos principais motivos que leva alguém a abandonar a Deus e a Igreja. 

Por causa da frustração, raiva e amargura por Deus não se submeter às suas vontades, caprichos e justiça própria, o emocional deste indivíduo é comparado a estar em um eterno furacão. A aflição, angústia e dor constantes de quase nunca conseguir que as coisas sejam segundo o seu “eu sei”. A pessoa pensa que Deus é injusto, e não entende porque Ele não faz tudo na sua vida segundo sua justiça própria (eu sei), e na verdade ela pensa que seria um deus melhor do que Deus. 

Em segundo lugar a justiça própria torna o indivíduo muito inflexível, rígido, e por isso ele fere muito os relacionamentos, a ponto de destruí-los, inclusive a própria família; pois como está preso no “eu sei” (justiça própria), não vai conseguir sair de si mesmo, sair da sua “razão”, sofrer o dano, ser oferta às pessoas e realmente manifestar o amor. Ele não consegue mais enxergar aos outros, nem se colocar no lugar deles; crê que sua forma de pensar é a melhor e é a lógica a ser seguida. Como se tornou inflexível, (pois acha que sabe como viver, o que é bom para ele e para os outros) vai determinar que todos a sua volta aceitem o seu caminho e andem segundo a sua vontade. Não aceita ouvir ninguém, sendo que aqueles que não aceitarem isso, irão sofrer diversos tipo de consequências: preconceitos, indiferença, rejeição e punições até mais violentas. 

Dentro da justiça própria, o que importa é ter tudo segundo a sua forma de pensar; e nisso, os outros e os relacionamentos não  têm mais importância. Assim a pessoa dentro de sua justiça lutará com todas as forças para que tudo seja conforme acredita, sem levar ninguém em consideração; e consequentemente, destruirá de dentro para fora sua família e os relacionamentos.

Na verdade, destruição é algo que acompanha a vida de quem escolhe viver essa justiça própria. É destruição nas emoções, nos relacionamentos, no caráter, na personalidade, no propósito; e pode até se materializar em destruição nas finanças, na saúde e na família. “O orgulho leva a pessoa à destruição, e a vaidade faz cair na desgraça”. (Provérbios 16:18)

Jó foi assim, alguém guiado por si mesmo, pela sua justiça própria, pelo seu próprio entendimento, pela sua arrogância de crer que tinha nele mesmo tudo que precisava para viver. "Fico firme e não desisto de dizer que estou certo, pois a minha consciência nunca me acusou." (Jó 27:6) Jó acreditava tanto que seu pensamento (justiça própria) era mais do que suficiente para viver bem, que considerou seus pensamentos acima dos pensamentos de Deus. “Então, do meio da tempestade, Deus respondeu a Jó assim: ‘Será que você está querendo provar que sou injusto, que eu sou culpado, e você é inocente?’” (Jó 40:6 e 8) Jó cria que não precisava de Deus, só precisava do seu poder para abençoar os seus caminhos “perfeitos”. E nisso, ele se afundava cada vez mais em si mesmo, na sua própria arrogância, colhendo para si e para os seus morte e destruição. "Aquilo que eu temia foi o que aconteceu, e o que mais me dava medo me atingiu. Não tenho paz, nem descanso, nem sossego; só tenho agitação.” (Jó 3:25-26).

Mas Deus tem um plano para tirar seus filhos deste caminho de destruição. “Por isso diz a Escritura: ‘Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.’” (Tiago 4:6). Ele mesmo resiste ao nosso “eu sei como viver e pensar”, e muitas vezes nos permite também sofrermos as consequências de viver assim (“O orgulho leva a pessoa à destruição, e a vaidade faz cair na desgraça”. Provérbios 16:18), para que vejamos  os frutos de morte desse caminho, e possamos ter esperança para entender o quão terrível é andar assim, e talvez desejar sair desse percurso. 

Aos que entenderem e aceitarem abrir mão dessa justiça própria do “eu sei”, para aqueles que estão cansados de tanta dor, frustração, amargura, raiva e destruição e aceitarem não ser mais deuses sobre a própria vida e se transformarem em filhos de Deus, o Senhor mesmo já os enviou socorro: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês.”  (Mateus 11:28)

Quando Jesus veio, Ele nos mostrou como é a natureza de um Filho de Deus. Um Filho que se submete ao Pai, e entende que todo seu propósito e direção de vida é revelada por Deus, para manifestar a natureza e vontade do Pai, e não a sua própria. “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”  (Filipenses 2:5-8). 

Como filhos de Deus, devemos discernir que o propósito de nossa vida não está em nós mesmos, sendo deus de si próprio; precisamos aprender na medida em que conhecemos ao Pai, que n’Ele teremos toda a direção, sabedoria e recursos para entender e viver o propósito de Deus para nossas vidas. “Jesus lhes deu esta resposta: ‘Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz’.” (João 5:19) “Pois não falei por mim mesmo, mas o Pai que me enviou me ordenou o que dizer e o que falar.” (João 12:49)

Jesus mesmo é o Caminho, a referência que nos tira desse  percurso de morte e destruição da justiça própria do “eu sei”,  trajeto de aflição, angústia e sofrimento para si mesmo e todos aqueles que se ama. “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.” (Mateus 11:29)

Geraldo Júnior e Valéria Morais
Transformados pela Renovação do Pensamento
https://renovacaodopensamento.blogspot.com.br/

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A dor da Injustiça

Ahhhh a dor da injustiça… como dói! Ela transpassa a alma, dilacera o coração. Nos inunda com raiva, dor, indignação, amargura, violência e justiça própria. Nos enche de direitos e reivindicações. Nos torna justiceiros (justiça própria) em toda e qualquer situação, para ver se é possível aliviar um pouco da dor, ou ao menos não sentir mais dores de outras injustiças. 

Por causa da dor da injustiça sofrida, como forma de defesa determinamos no nosso coração que nunca mais sofreremos injustiça, e nisso  passamos a ser guiados pela justiça própria, nos tornando deuses sobre nossa própria vida. Nos transformamos no tipo de indivíduo, que por causa da injustiça, se sente no direito de ser egoísta, de viver e fazer só o que quer, para ter certeza de que não sofrerá mais injustiça. Nos tornamos pessoas extremamente arrogantes e cheias de si mesmas. Gente que vive em função da injustiça que sofreu, buscando sempre controlar tudo ao seu redor, para que assim, segundo sua justiça própria, seja feita pelo menos um pouco de “justiça”. A pessoa adquire um apego à injustiça sofrida, para justificar sua busca por “justiça”, suas reivindicações e seu direito de viver do jeito que quiser.  A partir daí,  entra numa posição de vítima, onde absolutamente tudo se justifica por causa da injustiça sofrida.

Os argumentos geralmente são: "Vou fazer justiça do meu jeito, já que a vida e as pessoas têm sido tão injustos comigo”,  “Olha o quanto de injustiça já sofri! Não aceito passar por mais injustiças, tenho o direito de ser poupado de tudo!”. Ou ainda, “Como já sofri muitas injustiças, tenho o direito de viver do jeito que eu quiser, para garantir que não sofra mais ou para compensar a dor já sentida”. Muitas vezes há argumentos até diante de Deus, reivindicando que Ele faça isso ou aquilo ou deixe de fazer algo por causa das injustiças já sofridas. Caso o Senhor não cumpra suas exigências, fica revoltado com Deus.  

Muitos se entregam a raiva, ira e violência; e são extremamente nervosos e irritados. Outros se tornam rebeldes e egoístas, não se submetem a nada e nem a ninguém, sendo donos de si mesmos fazendo só o que querem e do jeito que querem. Há também os que se isolam, se escondem, se reprimem e muitos outros comportamentos, mas sempre com o objetivo de extravasar sua dor e revolta pelas injustiças sofridas. É o clamor da alma por justiça, mas dessa forma isso é apenas a manifestação de sua justiça própria.

O problema de viver em função da dor da injustiça padecida, e manifestar reivindicações de justiça própria, é que certamente as pessoas em sua volta, principalmente as da sua família vão ser muito feridas e machucadas. Ou seja, por decidir viver em função da dor da injustiça sofrida, a pessoa acaba se tornando aquele que produz dor e injustiça à todos. Assim se formam as correntes de injustiça.

Viver como injustiçado nunca produz justiça, só produz mais injustiça. Aquele que já sofre com a dor da sua injustiça sofrida, agora padece por causa da dor da injustiça que ele mesmo comete contra os seus. O que era sofrimento, agora é tortura. É dor sobre dor, injustiça sobre injustiça. 

Essas correntes de injustiça são uma prisão, onde um fere o outro, na tentativa de aliviar ou se proteger da dor, mas na verdade só gera mais dor e injustiça. “Quem cometer injustiça receberá de volta injustiça, e não haverá exceção para ninguém.” (Colossenses 3:25)

É preciso quebrar essas correntes de injustiça, e isso só é possível fazendo Justiça. Não é se vingando que haverá Justiça, nem tão pouco se tornando egoísta, arrogante e violento. Pedir para Deus fazer justiça se vingando ou punindo as pessoas que nos feriram também não. Se tornar deus sobre si mesmo, rebelde e independente não cessará a injustiça. Nenhuma manifestação de justiça própria jamais produzirá Justiça!

A Justiça ocorre quando há o perdão em relação àqueles que foram o motivo da injustiça, e o desapego e renúncia aos direitos e reivindicações atribuídas a si mesmo por causa da dor da injustiça. 

Se aquela injustiça que causou tanta dor, revolta e indignação foi perdoada; se aquela reivindicação por justiça própria foi cancelada pelo perdão, então aquela injustiça já não existe mais, gerando assim Justiça. Não existindo mais a ofensa da injustiça, não subsiste mais os argumentos para um vida em função de ser sempre vítima e cheio de manifestações de justiça própria, direitos e reivindicações; que ferem, machucam e geram mais injustiças na vida daqueles que tanto ama, principalmente os da família. Com a injustiça destruída pelo poder do perdão, a pessoa que perdoou torna-se livre para viver no Amor: se entregar aos cuidados, responsabilidades, compromissos, afetos e quando preciso até sofrer o dano pelos os seus, exercendo assim Justiça. Da mesma forma que anteriormente a injustiça gerava mais injustiça, agora a Justiça gera ainda mais Justiça. O profeta Isaías diz que nesse momento, a tão desejada cura para a dor da injustiça virá, tanto para si mesmo quanto para os seus: “Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura”. (Isaías. 58:8). “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.” (Mateus 5:6)

Foi exatamente isso o que Jesus fez por nós, quando Ele pagou nossas dívidas pelo pecado e nos perdoou: “Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3:23-26)

Como Ele perdoou todas as nossas injustiças, e rasgou o escrito de dívida, onde está a injustiça? Não mais subsiste, fez-se Justiça! Ele nos Justificou, para que possamos ser verdadeiramente Justos, e fazer Justiça também, não segundo nossa justiça própria, mas segundo a Justiça do Pai. “Porque aqueles que já tinham sido escolhidos por Deus ele também separou a fim de se tornarem parecidos com o seu Filho. Ele fez isso para que o Filho fosse o primeiro entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

Geraldo Júnior e Valéria Morais
Transformados pela Renovação do Pensamento
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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Meus direitos... (Justiça Própria I)

Na história do mundo, as diversas culturas sempre se destacaram por suas particularidades, e apesar de tantas misturas que ocorrem hoje por causa da globalização, ainda percebe-se algumas dessas diferenças de forma bem evidentes. Contudo, existe uma cultura de pensamento, uma forma de enxergar a vida que sempre esteve em todas as culturas, independente de suas particularidades, e que é assim até hoje: a JUSTIÇA PRÓPRIA, e ouso afirmar que esse pensamento está em seu auge nos dias atuais. 

A justiça própria é um pensamento maligno, que passa despercebido, pois tornou-se cultural, inclusive no meio cristão, e tem devastado pessoas, famílias, congregações, cidades e nações.

Como o próprio nome diz, podemos conceituar justiça própria como a justiça fundamentada em nossos próprios valores, princípios e crenças. O problema é que esta justiça nasce em nós mesmos, e por isso é extremamente corrompida pela natureza humana caída. Por isso o profeta Isaías afirma que nossa justiça é como absorvente usado. “... Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo.” Is. 64:6

A justiça própria pode se manifestar de três formas, sendo que a primeira vou compartilhar neste blog e as outras em blogs seguintes.

Nessa primeira manifestação, ela se apresenta como o senso de direito que se tem dentro das relações e circunstâncias da vida.

É por causa desse senso de direito (justiça própria) que existem tantas guerras, dissensões, rixas, divisões e reivindicações em nosso meio. É por causa desse senso de direito (justiça própria) que tantos relacionamentos são destruídos, seja dentro ou fora da família.

Isso acontece porque, como já foi dito, esse pensamento de justiça própria nos faz sentir no direito de muitas coisas, e o problema começa quando esses “direitos” não são respeitados. Por exemplo: um marido/pai tem até uma aparência de piedoso (provém recursos materiais e emocionais para a família, passa tempo com ela, ajuda nos afazeres, saem para passear e etc.), contudo, no coração dele, ele não está se entregando como oferta à família, e sim investindo, agregando créditos e direitos, os quais serão cobrados na hora certa. Tudo o que ele fez, na verdade, foi para justificar que ele adquiriu direitos de viver como bem quiser (com seu tempo, dinheiro, bens, hobbies,...) sem ser questionado. E se for questionado, já tem a sua defesa pronta: “Eu trabalhei, já gasto muito com vocês, o dinheiro é meu, posso fazer o que eu quiser com ele!”; “ Já passeei com vocês, agora posso sair, farrear ou curtir meu tempo na tv do jeito que eu quiser!” e vários outros exemplos... Ele na verdade não é nada daquilo que aparentava ser, apenas acumula argumentos, justificativas e DIREITOS para continuar tendo a vida egoísta que queria ter.

Há também a mulher/esposa que faz tudo pela família. Cuida bem dos filhos e marido, se “doa” a eles de diversas formas. Entretanto, se ela não foi vista, reconhecida ou recompensada segundo o seu senso de direito (justiça própria), se torna amargurada (tornando a vida de todos um inferno), pois tudo o que ela fez não foi se doar pelos seus, mas sim por si mesma, para que tivesse direito e crédito para usar depois. Suas atitudes não foram uma oferta pela família, e sim um acumular de argumentos, justificativas e DIREITOS para reivindicar recompensas e viver como quiser (chantagens emocionais, atenção, hobbies, controle da vida de todos a sua volta). A mulher se sente no direito de mudar todos na sua casa, pois como ela fez tanto pela família, todos tem que se adaptar ao modo como ela quer que as pessoas se comportem. E quando seus “direitos” não são atendidos, se sente no direito de ficar emburrada, murmurando e reclamando de tudo e todos, exalando fel em todo lar.

Como foi dito, esses são apenas alguns exemplos de como essa cultura se manifesta na família.

Esse senso de direito (justiça própria) também se manifesta em outros lugares como: trânsito, escolas, trabalho, igreja; não faltariam exemplos. Mas com certeza é dentro da família o seu maior estrago.

Essa cultura da justiça própria na perspectiva do direito diz muito forte ao nosso coração: “Eu posso, eu tenho direito, isso é lícito!”. E de fato, muitas coisas que se quer viver dentro de uma vida egoísta é lícito. "‘Tudo é permitido’, mas nem tudo convém. ‘Tudo é permitido’, mas nem tudo edifica. Ninguém deve buscar o seu próprio bem, mas sim o dos outros.” (1 Coríntios 10:23,24). É lícito, mas não convém, porque a motivação é egoísta e o fruto disso (mesmo sendo algo lícito) são relacionamentos feridos, casamentos destruídos, filhos abandonados, solidão e morte. “Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males”. (Tiago 3:16)

Graças a Deus, temos em Cristo a cura para essa cultura de pensamento. Se existe alguém que teria todo o direito legítimo de reivindicar algo na face da Terra, seria  Cristo “...que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”. (Filipenses 2:6-8)

Cristo veio para nos dar o exemplo de como é a cultura do Reino de Deus. A natureza de Jesus Cristo é não viver para si mesmo, e ensina que a vida não está em vivermos para nós mesmo, reivindicando direitos; e sim para o outro, assumindo responsabilidades, e se necessário até sofrer o dano, para que as relações sejam curadas e salvas. Jesus fez exatamente isso, não veio reivindicar seus direitos, mas assumir a responsabilidade (que nem era d’Ele, pois nunca pecou) e sofrer o dano para nos curar e salvar. 

Cristo nos chama a sermos como Ele é. Foi para isso que Ele veio: para ser o primeiro de muitos irmãos. “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. (Romanos 8:29)

A Verdadeira Justiça do Reino é ofertar a nossa vida aos irmãos (sem reivindicação de “direitos”), assim como Cristo nos deu a si mesmo para nos salvar e nada pediu em troca.
“Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quis mostrar com isso que ele é justo.” (Romanos 3:24-26)

Geraldo Júnior e Valéria Morais
Transformados pela Renovação do Pensamento
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terça-feira, 16 de abril de 2019

Quebrando as correntes da injustiça

O livro de Isaías retrata uma época de muita destruição, perversão e corrupção em Israel, sendo isso facilmente visto no capítulo 57, onde Deus mostra o quanto o povo se perdeu em sua rebeldia e obstinação por andarem em seus próprios caminhos.  Ainda assim, no capítulo 58, o Senhor descreve que Israel era muito devoto e religioso, com aparência de nação que buscava a Deus. Apesar disso, o Senhor não os respondia. Vendo o clamor das pessoas por terem suas orações aceitas, o Senhor com sua misericórdia começa a trazer luz sobre o porquê apesar de tanta devoção, humilhação, jejuns extravagantes, eles não eram respondidos. Ele explica que suas mentes estavam entorpecidas e a injustiça tinha se tornado cultural, a ponto de acharem Deus injusto por não respondê-los.

Fazendo paralelo com os dias de hoje, apesar dos milhares de anos que separam aquela geração da atual, é exatamente esse cenário que encontramos. Somos uma geração, um povo extremamente devoto: as igrejas estão lotadas, os congressos e conferências mais cheios ainda; as pessoas estão orando, jejuando, dizimando, e fazendo campanhas após campanhas. Não que isso esteja errado, mas certamente só isso não é garantia de proteção nos relacionamentos e circunstâncias, pois ainda vemos que o cenário é de destruição e desolação: as famílias estão destruídas, divórcios numéricos, suicídios como nunca (inclusive de muitos líderes religiosos), filhos sem pais (e quando os possuem são órfãos de pais vivos), e esposas/maridos abandonados (viúvos de cônjuges que moram juntos).

Da mesma forma que Deus respondeu ao questionamento de Israel, Ele nos responde hoje também. O Senhor nos diz que apesar de nossa grande devoção, somos uma geração que só faz o que quer! 

“‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste?’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês (…) Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto.” (Isaías 58:3-4)

O “Eu quero” é o que nos guia! Somos uma geração guiada pelo nosso ventre, e pelo senso de direito. Um povo que vive em função do gozo a qualquer custo! Achamos que temos o direito de viver como queremos, e que não haverão consequências. Temos todos os argumentos possíveis: “Trabalho muito, e trabalho é para isso mesmo.”, “A vida é muito curta, tenho que aproveitá-la ao máximo possível do meu jeito.”, “Se eu não pensar em mim, quem vai pensar?!”, “Posso viver do jeito que eu quiser, posso gostar disso ou daquilo, pois é lícito, eu tenho DIREITO!”. 

É justamente aí que surge a injustiça que Deus traz a luz em Isaías 58. O Senhor explica que apesar de toda a devoção em jejuns e orações, o que Ele considera como verdadeira devoção, verdadeiro jejum, não é simplesmente a liturgia; o jejum que Ele quer é prático, é no dia a dia: é “soltar as correntes da injustiça.”

"O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo?” (Isaías 58:6)

E o que é soltar as correntes de injustiça? Em Isaías, Deus diz que soltar as correntes da injustiça é “compartilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou e não recusar ajuda ao próximo” (Isaías 58:7).

Trazendo para a prática de nossa vida, a injustiça é nos retermos das pessoas, principalmente os da nossa casa (“Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel.” 1 Timóteo 5:8). O quebrar as correntes da injustiça é remover a injustiça em relação a um filho que busca se “alimentar” de seus pais em afeto, tempo, compromisso, direção, correção, e que nada encontra de suprimento, pois seus pais já se doaram em tudo para o trabalho, amigos, igreja, lazer, e o que sobrou desses pais é guardado para si mesmo: seu descanso, conforto e direitos. Filhos famintos que só encontram migalhas dos pais, isso quando encontram algo. Há também as esposas que estão morrendo de fome, porque a única coisa que conseguem do marido é dinheiro, e não atenção, carinho, conversa, ajuda em suas dificuldades emocionais, ajuda na criação dos filhos. Marido faminto por esposa com quem possam compartilhar suas angústias e dificuldades, e encontram apenas sugadoras cheias de si mesmas, que enxergam apenas o seu lado no casamento, não sendo auxiliadoras.

Quebrar a corrente da injustiça nos fala de filhos e esposas que buscam abrigo e amparo para sua alma, suas emoções, diante de tantas tempestades da vida e só encontram homens arrogantes e autoritários, que vivem como se o mundo girasse em volta deles, e  entendem que sua família está ali para servi-los e não atrapalhar os seus planos. E também maridos que se sentem desamparados, pois nos momentos de crises e dificuldades não encontram compreensão e apoio da esposa, e têm que passar pelas situações sozinhos. Muitas vezes esses pais/cônjuges são a própria causa das tempestades que vêm sobre a família, pois são mimados e egoístas, determinando que tudo o que vivem e têm é para fazê-los felizes, e nisso estão dispostos a sacrificar o próprio lar, tornando-o um inferno para todos.

Quebrar as correntes da injustiça da nudez, aponta para a família que está com suas vergonhas expostas diante de todos, como por exemplo a vergonha de uma esposa que tem marido, mas vive como viúva. A vergonha de ver os pais/cônjuge que são um sucesso no trabalho, empresa, igreja, estudos e etc, mas em casa, deixam a família desabrigada, desamparada, faminta e nua diante de todos. A vergonha de uma esposa que não tem o marido para compartilhar seu dia a dia, suas crises, suas alegrias, porque este cônjuge chega em casa e a única coisa que quer é ter todos os problemas resolvidos para ter paz e sossego, afinal, trabalhou para colocar comida na mesa e pagar as contas. Maridos que demonstram amor apenas fora de casa, mas em casa só entregam indiferença, pois têm direito ao “descanso merecido”. A vergonha de um marido que tem uma esposa controladora e manipuladora, querendo tudo apenas do seu jeito, e só vivendo para satisfazer suas futilidades; e diante das crises e frustrações desonra e difama seu marido. Vergonha de filhos que embora tendo pais vivos, vivem como órfãos, abandonados, sem direção, criados por outra pessoa da família, porque seus pais estavam ocupados demais para assumir a responsabilidade sobre eles, ou priorizaram seu lazer e conforto, não aceitando as mudanças que um filho acarreta na vida de qualquer pai ou mãe. A vergonha das feridas expostas através de todo tipo de enfermidade emocional e psicológica que existe hoje. 

Quebrar as correntes da injustiça na família nos fala também sobre ser para ela ajuda e suporte em suas dores, dificuldades, crises e necessidades. Isso só ocorre quando é quebrada a injustiça de pais/cônjuge que de tão cheios de si mesmos, nunca estão disponíveis para serem o suporte e a ajuda que a família necessita. Pais que querem ser eternos adolescentes com direitos a baladas, bares, cinemas, tv, tempo as sós; mas não querem a responsabilidade, o compromisso com o filho, o estar junto, do tempo de ócio, do tempo de correção, das conversas à toa que os fazem se sentir preciosos e gera a certeza de poder contar com seus pais em tudo, até mesmo nos assuntos importantes. Filhos que não têm pais participativos e presentes para contar histórias e expor assuntos sobre a vida, gerando identidade, responsabilidade e compromisso. Se um filho não consegue ter pais presentes no momento comum, não confiarão nesses pais para contar algo relevante, porque já entenderam que sua vida não é importante dentro de casa e que não podem contar com eles.

Deus ama seu povo e tem compromisso com ele, por isso não os desamparou: “Mas o povo que vivia nas trevas viu grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz!” (Mateus 4:16). O Pai nos enviou a Justiça d’Ele: O Sol da Justiça, a Estrela da Manhã, Seu filho amado Jesus Cristo. Ele veio para que sejamos livres de todas correntes da injustiça, e consequentemente nossa casa também. Essa é a Justiça de Deus: “ ...que Cristo nos amou, e se entregou a si mesmo por nós…” (Efésios 5.2) “Que Jesus veio não para fazer sua própria vontade, mas para fazer a vontade do Pai.” (João 6:38); que Ele nos deu a Si mesmo, por completo, para que por Ele não tenhamos mais fome, nem sede, nem nudez, nem desamparo, nem falta de abrigo. “Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês.” (Lucas 22:19,20)

Ele foi o primeiro, para que possamos também ser filhos de Deus, irmãos de Cristo e sermos como Ele. “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.” (João 14:12). Jesus foi o primeiro a partilhar a si mesmo, sua própria carne e sangue para que possamos comer e beber d'Ele. Jesus foi o primeiro para deixar o testemunho e nos capacitar a exercermos justiça para com relação ao nosso próximo, principalmente os da nossa casa. Ele nos capacita a dar-nos a nós mesmos, compartilhar de nós mesmos uns com os outros, não simplesmente o que temos, mas o que somos, sem reserva, assim como Cristo compartilhou d’Ele mesmo conosco. 

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:35-40)

O sentido da vida não está nas coisas, e nem em nós mesmo, mas sim no outro! Em Jesus, temos tudo o que precisamos para sermos livres de toda injustiça que nos prende, para que Nele, possamos remover a injustiça sobre aqueles que amamos.

Fazendo Justiça, como Cristo fez Justiça, seremos vistos, ouvidos, socorridos para que mais e mais Justiça seja feita enquanto vivermos. “Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá; você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou.” (Isaías 58:8,9)

Geraldo Júnior e Valéria Morais
Transformados pela Renovação do Pensamento
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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Cadê a justiça de Deus em nossas vidas?!


Uma das maiores dores que sofremos durante a vida são as injustiças. É difícil lidar com elas. Tão difícil que muitas vezes nos defendemos delas por conta própria, e as situações só pioram. Muitos relacionamentos acabam e até tragédias acontecem dentro desse ciclo da injustiça, e da reação do injustiçado se defendendo.  

Quando entendemos que o Senhor é a nossa justiça (Salmo 103:6), tentamos deixar de reagir por conta própria às injustiças e levá-las a Deus, crendo que Ele fará justiça por nós. Ele mesmo prometeu que bem aventurados são aqueles que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados (Mateus 5:6). Mas na vida, não é isso que vemos dia após dia, muito pelo contrário. São injustiças após injustiças, que nos ferem e nos machucam, por anos e anos, talvez até durante a vida toda, e na prática, não vemos a tão esperada justiça sendo feita. Mas se Jesus fez essa promessa, por que não somos saciados na nossa fome e sede de justiça? 

O problema está no nosso conceito de justiça, que é corrompido. Ele é baseado na nossa justiça própria, que por sua vez é fundamentada no nosso orgulho, arrogância e prepotência de achar que sabemos o que é bom para nós mesmos e para as pessoas. O nosso conceito de justiça é carregado de reivindicações, tanto em relação à Deus quanto às pessoas. No fim, atribuímos dívidas e acusações às pessoas, e só conseguimos ver justiça se essas pessoas pagarem ou sofrerem por aquela dívida/ofensa de qualquer forma que seja, porque na verdade não queremos justiça, queremos vingança. 

Mas não é assim a Justiça que vem de Deus. A Justiça de Deus é que Jesus veio ao mundo, se entregou à morte numa Cruz para nos salvar e nos perdoar de todo pecado e de toda injustiça que cometemos:
“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3:21-24).
“Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29). 
Nisto Ele também nos ensinou como fazer Justiça, ou seja, perdoando e removendo as reivindicações sobre as pessoas. Assim, se não existe mais acusação e reivindicação sobre a pessoa que cometeu a injustiça, aquela injustiça não mais subsiste, havendo assim Justiça!

Desta forma podemos ver que Jesus tem cumprido o que Ele nos prometeu, que quem tem fome e sede de Justiça será saciado quando se perdoa as ofensas e remove as reivindicações “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mateus 6:12). Ele mesmo fez Justiça por nós na Cruz, e continua nos perdoando e sendo misericordioso dia após dia. E ainda ensinou Seus filhos a fazer Justiça por toda terra, perdoando uns aos outros, saciando assim nossa fome e sede de Justiça.


Geraldo Júnior e Valéria Morais
Transformados pela Renovação do Pensamento
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Arrogância de Jonas


Jonas foi um profeta israelita da tribo de Zebulom. Ele era amado por Deus e tinha um conhecimento significativo sobre Deus.

“E orou ao Senhor, e disse: Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal”. Jonas 4:2

Ainda assim, Jonas tinha o entendimento equivocado sobre a vida, sobre ele mesmo, e sobre o seu propósito, pois não os compreendia segundo o pensamento de Deus. Ele não concordava com o agir de Deus, e isso gerava uma crise interna muito grande nele. Mas porque Jonas pensava assim, a ponto de discordar de Deus? Pois bem, vamos entender neste texto o que Deus expõe sobre o comportamento e pensamento de Jonas, e o que ele cria sobre a vida.

Logo no início do livro de Jonas, o Senhor o envia a Nínive. Deus queria que ele proclamasse ao povo de Nínive que se eles não se arrependessem de sua maldade Ele iria destruí-los.
“A palavra do Senhor veio a Jonas, filho de Amitai com esta ordem: ‘Vá depressa à grande cidade de Nínive e pregue contra ela, porque a sua maldade subiu até a minha presença’". Jonas 1:1,2

Nínive era uma das cidades inimigas de Israel, sendo o povo desta cidade, extremamente violento e cruel, de fama conhecida. Para se ter uma ideia depois de suas vitórias em guerra, estavam acostumados a cortar as mãos e os pés, os narizes e as orelhas, furar os olhos e a fazer pirâmides com as cabeças humanas. Na Bíblia, o profeta Naum testifica sobre isso quando diz: “Ai da cidade sanguinária, repleta de fraudes e cheia de roubos, sempre fazendo as suas vítimas!” Naum 3:1

Óbvio que Jonas sentia medo e raiva daquele povo. Mas o que realmente incomodou e deixou Jonas irritado com Deus, foi a possibilidade daquela cidade ser salva!  Dentro dos conceitos de Jonas e sua justiça própria era inconcebível que Nínive tivesse chance de salvação. Mesmo que essa oportunidade viesse de Deus, Jonas queria vingança, vendo essa cidade totalmente destruída. Como resposta à esse desejo de vingança, Jonas foge da direção de Deus. Essa fuga, além de ser uma fuga de seu propósito e uma desobediência à Deus foi um levante contra o Senhor, sendo uma clara mensagem à Deus: “Não concordo com Sua vontade! O Senhor está sendo injusto e um Deus ruim, e se eu fosse Deus eu faria diferente!”

Nisto Jonas manifestou seu conceito leviano e deturpado de vida, juntamente com toda sua arrogância e orgulho em achar que sabia o que era melhor para si e para as pessoas. Essa arrogância era tão grande que ele aceitou abrir mão de seu propósito para sustentá-la. E ele fugiu para o mar.

“Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis. E descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor.” Jonas 1:3

Mas Deus amava Jonas e queria salvá-lo de sua perspectiva corrompida e pervertida da vida. Deus queria mostrar que nossa vida só faz sentido e só somos transformados quando seguimos nosso propósito dado por Deus. “Queridos irmãos, vocês sempre seguiram cuidadosamente as minhas instruções quando eu me encontrava no vosso meio. E agora, quando estou ausente, devem ainda com maior cuidado desenvolver nas vossas vidas a salvação de Deus, obedecendo-lhe com profunda reverência e temor.” Filipenses 2:12 

No livro de Jonas, vemos uma pessoa com direção clara de Deus para sua vida, para o cumprimento de seu propósito. Mas Jonas era arrogante tendo os conceitos deste mundo como absolutos, e não a vontade de Deus. 

No livro de Jonas, o mar simboliza o mundo e os conceitos do mundo. O mar são as sugestões e as certezas que o mundo oferece. Jonas engolido pela baleia simboliza ele sucumbido por sua arrogância, sem ter para onde fugir. Como analogia pode-se dizer que quando o orgulho entra nos pensamentos de uma pessoa, é como se uma baleia a engolisse, e em seu estômago, as enzimas vão  “dissolvendo-a” ainda vivas, sem ter para onde fugir.

Quando os conceitos do mundo e a arrogância estão fortes em uma pessoa, esta não entende o propósito de Deus para sua vida. Neste estado, caminha em direção à morte de seu propósito. É como se morresse afogado por seus próprios pensamentos, dentro da sua própria vontade, dentro da própria obstinação. 

“Mas os ímpios são como o mar bravo, porque não se pode aquietar, e as suas águas lançam de si lama e lodo”. Isaías 57:20

Outro exemplo bíblico de pessoa que em sua soberba foi sucumbida pelo mar, foi Faraó no Egito. Quando Deus envia Moisés para falar a Faraó deixar Seu povo ir, Faraó não aceita por causa de sua arrogância, e como consequência, Faraó morreu afogado em sua própria obstinação.

“Porque os cavalos de Faraó, com os seus carros e com os seus cavaleiros, entraram no mar, e o Senhor fez tornar as águas do mar sobre eles; mas os filhos de Israel passaram em seco pelo meio do mar”. Êxodo 15:19

“Mas derrubou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho; porque a sua benignidade dura para sempre”. Salmo 136:15

Algumas tempestade em nossas vidas vistas como juízo de Deus, são na verdade oportunidades de arrependimento, para que tenhamos a chance de entender o quão perigosos são os conceitos deste mundo (o mar). Exemplo disso, é o que aconteceu com Jonas, quando veio a tempestade sobre o barco usado por ele para fugir do propósito de Deus. “O Senhor, porém, fez soprar um forte vento sobre o mar, e caiu uma tempestade tão violenta que o barco ameaçava arrebentar-se.” (Jonas 1:4). 

O mar traz a arrogância com todos os conceitos deste mundo, com todas as suas afirmações, sofismas, sedução, o “eu posso”, “eu faço”, “eu controlo”, “eu tenho poder” sobre mim mesmo, sobre as circunstâncias, sobre o próximo. A tempestade mostra a mentira da arrogância, tirando a calmaria do mar, e mostrando que só há Um que tem o poder sobre todas as coisas: O Senhor Jesus Cristo. Isso acontece porque na calmaria do mar, parece que tudo vai dar certo, mas é em meio à tempestade do mar que entendemos que não temos controle, que nossas verdades são lixo, e só assim, temos a oportunidade de reconhecer os caminhos do Senhor como verdadeiros, nos arrependendo e clamando ao Senhor para levar-nos de volta ao nosso propósito. 

Neste caso, não é o coração que é duro, e sim a dureza da cerviz (pescoço que não se curva), ou seja, a pessoa que não submete seu entendimento ao Senhor. A arrogância (dura cerviz) vê a tempestade, e mesmo assim afirma “ eu estou certo, não tenho outro deus além de mim”. 

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”. Deuteronômio 10:16

“Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais”. Atos 7:51

O arrogante diz “eu sou, eu me fortaleço, eu me desejo, eu me regozijo, eu sou o que sou e eu sou”. Em sua arrogância, ele se coloca como um deus, mas seus pensamentos não passam de areia debaixo dos pés, afundando-o nos conceitos deste mundo. Somente o Senhor é Rocha, e somente n’Ele nossos pés não vacilam.

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda”. Mateus 7:24-27

O mar é como uma lembrança da terra (aquilo que poderia ter sido), de um propósito que se afogou (humilhado): as estrelas não estão no céu mas na areia, os cavalos e seus cavaleiros se tornam cavalos marinhos minúsculos e lentos, as árvores são algas molengas. A terra para o mar é uma evidência para aqueles que estão presos em sua arrogância, de que existe terra firme, existe uma Rocha, existe esperança de uma vida que vale a pena. Existe uma promessa de que o Senhor resgata aqueles que estão presos no mais profundo do mar, no mais profundo abismo.

“Não és tu aquele que secou o mar, as águas do grande abismo? O que fez o caminho no fundo do mar, para que passassem os remidos?” Isaías 51:10

“Assim diz o Senhor, o que preparou no mar um caminho, e nas águas impetuosas uma vereda” Isaías 43:16

Voltando ao exemplo de Jonas, a baleia pode no fim tê-lo salvo, mas o objetivo era mostrar sua a arrogância e a consequência desta. Jonas dentro da baleia teve a consciência de alguém que não tinha para onde fugir, e que não morreria simplesmente afogado, mas seria corroído (enzimas digestivas da baleia) dentro dos seus próprios desejos e obstinação, dentro da sua própria raiva e amargura, vendo que não conseguia controlar seu próprio destino. Quando Jonas teve consciência de sua loucura em se levantar contra Deus (“fugir”), teve a chance de entender que existe um caminho e um propósito. 

A raiva de Jonas não era porque ele era profeta, mas sim porque ele não tinha misericórdia, era muito egoísta, e era guiado por seus desejos; ele era um deus em si mesmo. Jonas não era almático, nem mimado; ele se sentia dono da verdade, se fazendo como um deus dentro da suas vontades e desejos, alguém movido pela sua própria arrogância e auto satisfação. Jonas era alguém que julgava poder escolher quem deveria morrer ou viver, quem era merecedor de  misericórdia e quem não era. Ele não simplesmente discordava de Deus, ele tinha raiva de Deus, porque não conseguia ser Deus; porque se ele fosse Deus, ele agiria diferente. Jonas era um tolo, seu entendimento era corrompido pelos conceitos deste mundo. Ele não entendia o macro e nem queria entender. Ele não pensava nos outros e nem queria pensar. Ele pensava em si e seu desejo de vingança. Ele não tinha um conceito de família, de sociedade, do outro. Tudo era para si e por si. Ainda assim Deus o amava, e não se esquecia do propósito da vida dele. Deus poderia ter escolhido outro profeta, mas não o fez, para poder ensinar para Jonas a se importar, a entender sua pequenez, aprender a ter compaixão, aprender quem é Cristo e como Cristo é, para que Jonas pudesse ser salvo de sua arrogância e egoísmo, e conhecesse o Pai. 

Se Deus teve misericórdia de Nínive, porque não teria de Jonas. Deus é longânimo, e pergunta para Jonas “Você tem alguma razão para essa fúria?" (Jonas 4:4). Quando a aboboreira criado por Deus para ser sombra para Jonas morreu, Deus pergunta novamente “Você tem alguma razão para estar tão furioso por causa da planta? Respondeu ele: “Sim, tenho! E estou furioso a ponto de querer morrer’.” (Jonas 4:9) Deus mesmo responde o porquê da raiva de Jonas (Jonas 4: 9-11): é porque a vida daquela árvore não estava satisfazendo os desejos dele. A raiva de Jonas não é porque a árvore não cumprui o propósito, a raiva é porque ele queria controlar a árvore, para que a árvore vivesse eternamente em função dele, ele não queria o propósito da árvore, ele queria ser um deus, onde ele comandasse tudo em função dele, onde não existe o pensamento em relação ao próximo. Deus fez crescer aquela árvore ali para mostrar para Jonas o nível de seu orgulho e egoísmo. 

Deus é benigno e longânimo (Jonas 4:2). Jonas sabia disso, ele só não entendia que Deus também estava sendo benigno e longânimo para com ele, quando o enviou para pregar em Nínive. Deus também estava dando a chance de Jonas se arrepender de seu egoísmo e arrogância.

O sol escaldante, a crise da árvore morta em nossas vidas é para nos lembrar que não somos suficientes em nós mesmos, que nós não temos o poder do controle, que existe um propósito maior, que o mundo não é fundado na pequenez dos nossos pensamentos. Muitas situações difíceis vêm para nos acordar, para lembrar que existe um Deus e um propósito, para mostrar conceitos errados sobre a vida, sofismas e trazer esperança de se viver uma vida verdadeira, onde os propósitos se cumprem. 

“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais”. Jeremias 29:11

Em todo tempo, Deus estava dando uma chance para Jonas de se comportar como filho de Deus. Mas Jonas foge como um servo, vendo o propósito como um serviço. Entretanto, Deus estava  mostrando para Jonas que ele era tratado como filho, e como o coração de um filho deve ser para se cumprir seu propósito.


Geraldo Júnior e Valéria Morais
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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Orgulho como consequência da orfandade


A orfandade paterna hoje é uma das maiores, senão a maior ferida da humanidade. Nada tem um poder tão grande de destruir a personalidade, princípios, valores e identidade de uma pessoa do que a falta de um referencial paterno. Esta orfandade pode ocorrer tanto na forma física, com a ausência física de um pai; quanto na ausência emocional, com um pai presente fisicamente, mas sem compromisso, gerando órfãos conhecidos como órfãos de pais vivos, ou órfãos de pai presente.

Atualmente temos muitos estudos que comprovaram a imprescindibilidade de um referencial paterno na vida de uma pessoa, pois é o pai o responsável por ser referencial para o filho ter identidade, caráter, auto afirmação e convicção de quem ele é, e trazer também a base de princípios e valores onde é construída sua personalidade. O referencial de pai é tão imprescindível na vida de um filho, que um dos principais propósitos de Jesus foi nos revelar o Pai, e mostrar que não éramos órfãos, que tínhamos um Pai, o qual se revelava e se manifestava n’Ele. “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:9

Conforme dito no início, as feridas e as consequências da orfandade são enormes, terríveis e várias. Mas neste texto quero me ater especificamente a uma dessas consequências, extremamente destrutiva para uma pessoa, e infelizmente muito comum dentro da orfandade. Estou falando do ORGULHO. Coloquei tudo maiúsculo de propósito, pois o orgulho é uma das piores deformidades da alma de um ser humano. É um comportamento que nos deixa profundamente distantes do caráter de Deus, da nossa verdadeira identidade e propósito. Sem falar que é um comportamento que traz muita destruição para a vida da própria pessoa e para todos que estão ao redor dela.

Mas como o orgulho passa a fazer parte da pessoa? Uma pessoa que não teve o referencial de pai, de caráter, de entendimento, a transmissão do DNA de entendimento de perspectiva da vida, de consciência de si, de honra no sentido de atitudes, não teve a base paterna para ter segurança em si mesmo; consequentemente terá problema de identidade.

O que quero dizer com problema de identidade? Significa que a ausência de paternidade gera uma ausência de convicção de princípios, de direção na vida; de maturidade em saber tanto acertar quanto errar, não saber firmar os pés no sentido de entendimento de si mesmo.

A pessoa que tem problema com paternidade (o pai não transferiu para ela uma identidade), desenvolve comportamento de orgulho como uma busca de auto afirmação daquilo que ela não tem, porque ela não tem onde firmar seus pés.

A arrogância surge como uma resposta de compensação: “eu não sei quem sou, mas tenho habilidade em ‘tal’ sentido”, então sou o que faço”. Como consequência a pessoa passa a se orgulhar daquilo que sabe fazer para compensar a ausência do “sei quem sou”.

Isso acontece porque a pessoa está perdida, não sabe diferenciar identidade (que viria transmitida pela paternidade) de habilidade (dom). O orgulhoso tem uma ferida em relação à paternidade: a dificuldade em saber sua identidade, e por isso precisa provar-se para si e para os outros, tentando passar uma imagem de ser forte. O orgulho faz com que a pessoa considere se importante demais para si mesmo.

O soberbo queria ter uma identidade forte, mas ele não tem. Se ele possuísse uma imagem forte de si mesmo, não precisaria se orgulhar. Perguntaram para Jesus se ele era servo de  Belzebu, mas ele não se ofendeu (Lucas 11:15); as pessoas o xingaram, cuspiram, falaram mal, difamaram, inventaram histórias sobre Jesus, mas nada o atingiu, porque Jesus tinha identidade, ele aprendeu do Pai quem ele era.

E, despindo-o, o cobriram com uma capa de escarlate; “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e em sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus. E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e batiam-lhe com ela na cabeça. E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe a capa, vestiram-lhe as suas vestes e o levaram para ser crucificado”. Mateus 27:28-31

“Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” Isaías 53:7

A pessoa com identidade não fica abalada quando seu orgulho é atingido. A pessoa que se abala é exatamente porque não tem identidade firmada, porque sua convicção está fundamentada no orgulho (preso a necessidade de ser o melhor em suas habilidades) e não em uma verdade.

O fundamento do orgulho pode ser comparado a se ter os pés na areia. Por mais que a pessoa imagine ter convicção sobre si mesmo, na verdade, aquilo é areia. Como o orgulho é uma compensação pela ausência de identidade, a pessoa sente a necessidade de amenizar o vazio da falta dessa identidade, se agarrando a tudo o que consegue fazer com desenvoltura, ficando com ego super inflado quando se sobressai nas situações. Mas esta é uma sensação que dura apenas alguns momentos, e logo em seguida sente-se quase que uma depressão e nisto a necessidade de ser aplaudido novamente. Entretanto, é impossível sobressair-se sempre.

A soberba desenvolve-se como um vício, uma dependência, e consequentemente uma oscilação emocional muito forte porque sempre tem que se estar certo, sempre tem que ser o poderoso, ser o que manda, acertar tudo; mas na vida é impossível que o “sempre” aconteça. Por isso é impossível sustentar o vício do orgulho elevado sem intervalos.

Mesmo que uma pessoa tenha áreas em sua vida que se destaque, ninguém consegue se destacar em tudo. Então é como se dentro da pessoa houvesse aqueles momentos de êxtase e os momentos de depressão. Ela vive os êxtases e as “pancadas das quedas”. É uma pessoa emocionalmente imatura e insegura, porque só sabe viver no êxtase. Tudo que abala este êxtase mexe com seu ego. Ou é uma pessoa que tem o domínio, ou sente-se em profunda frustração. Não existe meio termo. É realmente como um vício, a pessoa não sabe viver no meio termo. Ou a pessoa está eufórica, porque tudo saiu do jeito que ela queria, ou ela está “na mais profunda lama”.  Não sabe viver o contente em todas as circunstâncias da vida como nos ensina Bíblia: “Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.” Filipenses 4:11-12

Como um vício, a arrogância pode desenvolver-se gradualmente e segundo as carências de cada um.

A questão do sentimento de depressão que a pessoa sente quando não está em êxtase, não se manifesta com o sentimento de querer morrer (ainda que possa acontecer), mas se manifesta como um sentimento de se sentir diminuído diante das outras pessoas (reputação). A pessoa não precisa estar numa posição tão abaixo, basta estar menos do que o auge. Mesmo que se esteja no mesmo nível de um grupo de pessoas, o sentimento de fracasso existirá, porque o orgulhoso sente necessidade de estar acima do grupo para ter o ego super elevado.

O ego do arrogante é desproporcional porque sua perspectiva é o ego, e não a realidade. O orgulhoso engana a si mesmo. Mesmo que existam áreas em sua vida que tenha facilidade, o soberbo engana a si mesmo, crendo que ele tem facilidade em tudo. Mas Deus não nos criou para termos facilidade em tudo, nos criou como corpo, para que os dons de cada um se completem.

“O olho não pode dizer à mão: Eu não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: Não necessito de vós. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem os mais fracos, são os mais necessários. E os membros do corpo que temos por menos honrosos, a esses cobrimos com mais decoro. Os que em nós são menos decentes, recatamo-los com maior empenho, ao passo que os membros decentes não reclamam tal cuidado. Deus dispôs o corpo de tal modo que deu maior honra aos membros que não a têm, para que não haja dissensões no corpo e que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros.
Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros”. 1 Coríntios 12:21-27

O orgulhoso tem uma vida de frustrações: de altos e baixos; sendo emocionalmente instáveis.

Como em um vício, o fator destrutivo também aparece, tanto se auto destruindo como destruindo tudo à sua volta (família, amizades, emprego...). Destrói qualquer coisa para manter o vício.

Quando Deus fala de orgulho na Bíblia, a entidade que Ele mostra para representar o orgulho (Leviathan) mora no mar. “Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar.”  (Isaías 27:1). O mar nos dá a analogia perfeita de como é a vida de quem vive no orgulho. No mar não há firmeza, é tudo muito instável. O fundamento do mar é areia. Quando se acha que há paz e estabilidade, uma onda, uma tempestade ou uma correnteza vem e acaba com tudo aquilo, trazendo medo, raiva, instabilidade, angústia e insegurança. Dentro do mar não se vive a verdade, não precisa ter equilíbrio, não precisa e nem consegue se firmar em nada, não sente ou sofre a gravidade, não sente ou sofre os desafios de um ser humano em terra. No mar é impossível desenvolver a natureza humana. Por isso a pessoa perde sua identidade, propósito e natureza.

Usando a analogia bíblica do mar pode-se dizer que o arrogante tem sua vida e suas emoções como de quem “vive” no mar: ondas, correntezas, dificuldade de se locomover andando, sensação de peso quando se sai da água (sair da água simboliza ir para vida real). Quando vem uma ventania, as ondas se agitam e no agitar delas, elas o carrega. Mas ao mesmo tempo, sensação de leveza quando se está dentro d`água. O mar é um bom exemplo porque ele confunde muito, tira o referencial das sensações da realidade na terra (vida).

No mar não conseguimos ter domínio sobre nós mesmos porque vem uma correnteza e nos muda de posição. É a analogia de se alcançar uma posição de destaque e depois aparecer uma situação em que se perde a posição alcançada. Sempre existe “um peixe maior”, sempre vai aparecer alguém que se destaca mais, que tem mais facilidade.

O orgulhoso tem muita dificuldade de relacionamento, porque sempre tem que ser exaltado nas situações e quando não o é, fica extremamente irritado, porque se sente humilhado, agredido.

Por não estar firmado em terra, na rocha, o viciado em orgulho não sente as dificuldades da vida como algo normal, ele percebe tudo como uma pancada, uma agressão pessoal; tudo entra arrebentando, tudo desmorona a pessoa. Ao perceber essa instabilidade da vida, começa a achar que Deus é injusto. Quando aparece alguém que faz algo de forma tão boa quanto o orgulhoso, ou alguém consegue algo que o arrogante estava tentando e não conseguia; tudo é como uma correnteza que vem e carrega suas emoções, fazendo perder a estabilidade. A percepção da frustração em relação à situação resulta em fúria e violência.

Mas ninguém precisa viver para sempre preso ao sentimento de orgulho! Deus é Pai, e em Cristo Ele nos adotou, nos fazendo filhos: “Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade,” (Efésios 1:5). Mesmo que alguém não tenha tido um pai terreno para lhe transmitir identidade, (seja essa ausência física, afetiva ou de compromisso) Deus entra em nossas vidas para fazer isso, porque a identidade sempre vem pelo pai.


Mas o processo de Deus restaurar a identidade do soberbo é um processo complicado porque o orgulhoso já está armado em sua arrogância e entende o cuidado de Deus como uma agressão. O orgulhoso tem uma carapaça que precisa ser tirada para que seu caráter possa ser impresso, sua identidade.

O arrogante tem muita raiva de Deus (seja isso consciente ou não), porque Deus não tem compromisso em manter o ego, arrogância, soberba e reputação da pessoa, mas tem compromisso com o propósito e a identidade dela. O orgulhoso vive o conflito interno do vício do orgulho tentando ser mantido, a raiva da ausência da paternidade, as pernas vacilantes por não ter fundamento. A pessoa sente como se na vida, tudo e todos estivessem contra ela. Por seus pés estarem apoiados na areia, nunca se estabiliza para andar, está sempre sentindo como se fosse levado pelas correntezas; e essas correntezas sempre são percebidas como agressão recebida e retribuída com violência. O orgulhoso está sempre nervoso, agitado; mesmo que tudo esteja bem, ele tem a oscilações de temperamento: num momento está tudo bem, mas qualquer informação, qualquer coisa que aconteça, podendo ser uma conversa, algo que viu, qualquer coisa vai abalar aquele sentimento do orgulho e o soberbo cai no fundo do poço. Não tem um meio termo, a todo tempo está enganando a si mesmo sem ter consciência disso.

Quando o Pai tentar tirar o orgulhoso de dentro das águas da correnteza, o arrogante sentirá um peso terrível, e vai se perguntar porque não pode viver dentro da água. Quando sai d’água, sente ódio de Deus, não entende porque não pode ter tudo o que quer, sem ter que mudar sua referência de como enxerga as coisas. É uma luta do Pai tentando puxar a pessoa para vida, imprimir uma identidade, ser Pai ativo e presente, mostrando a vida como ela deveria ser.

Tudo que Deus faz como Pai para dar identidade, para conferir o propósito verdadeiro, o orgulhoso lutará contra porque seus valores são divergentes. O propósito do orgulhoso é sustentar o orgulho e não o propósito pelo qual nasceu. O trabalhar de Deus na vida do soberbo será como uma desintoxicação do vício do orgulho, onde os sintomas da desintoxicação serão sentidos pela pessoa.

Quando a pessoa tem identidade, ela sabe quem ela é, o que significa ter um conjunto de valores dado por Deus (seja a pessoa cristã ou não). Não é um conjunto de habilidades que desenvolve um propósito da vida, mas é um conjunto de valores que nos leva o propósito.

O filho que entende os valores dados por Deus para sua vida, se desenvolve e cumpre o seu propósito. O próprio propósito impulsiona a pessoa no caminho que ela deve andar, e para que ela cumpra o propósito, Deus lhe dá um conjunto de habilidades. Não é o orgulho que a impulsiona, são os valores que a impulsiona. É algo que não se pode reter, é o fruto que frutifica.

O orgulhoso precisa ser esvaziado, porque colocou o orgulho no lugar da identidade. A guerra e o ódio contra Deus realmente é intenso. Os valores de Deus são considerados desprezíveis, porque Deus mexe com os fundamentos errados que o motivam (o orgulho). Deus coloca evidente a areia debaixo dos pés para despertar, mostrar os fundamentos de areia do orgulho. Nisto Deus está dando uma chance para levá-lo para vida. Deus está tirando-o do vício, para que a pessoa possa viver, ter uma vida de verdade, tenha o Pai, uma identidade, um propósito. Glória a Deus, Ele nunca desiste do filho que ama.


Geraldo Júnior e Valéria Morais
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